terça-feira, 22 de abril de 2008

Lenço

Outrora longos, viu-os desaparecer, fio a fio, como se os contasse, olhava de forma lânguida aqueles finos e frágeis cabelos. Escorriam-lho pelos ombros e por fim caiam no chão, de forma suave e paulatina. Toda a sua vida mudara no instante em que soubera da notícia, queria desaparecer para não sofrer. No entanto, todos lhe deram força para continuar a lutar. Aquele lenço na cabeça era a sua marca, aprendeu a não se envergonhar da sua situação. Agora era uma mulher forte e determinada, com esperança de que tudo fosse passageiro e plenamente convicta que tudo tinha uma razão, nada acontecia por acaso. Talvez fosse uma prova, um castigo, ou uma partida do destino!

O tempo passou, o vento ficou mais sereno e, aos poucos, os seus cabelos cor de ouro começaram a crescer. Voltava a ser a mesma de sempre, o sorriso acendeu-se e tudo retomava o seu curso!

Lá em casa chamavam-lhe «lencinho» e, habitualmente, usavam o mesmo adorno em sinal de normalidade, não forçada, mas necessária. Era feliz e compreendida!

A sua filha era quem mais a apoiava, era alegre e vincadamente teimosa naquilo em que acreditava. Todavia, estes últimos meses tinham ido muito abaixo. Pese embora o facto de sua mãe estar completamente recuperada, tinha perdido as forças e o ânimo. Algo não ia bem, sentia-se desesperada, mas não mostrava. Sem saber bem porquê o azar tinha chegado à sua porta. E agora vejo-a, a caminhar neste corredor, com passos suaves! Entra no quarto, baixa-se custosamente e retira-o da gaveta. O lenço vermelho ia ter a mesma utilidade!

terça-feira, 1 de abril de 2008

Brinquedo

Oh aquele brinquedo que o fazia viajar, querer chegar lá! Que grande e belo, estupendo de faces rectas e traços vincados. Virava, girava, esticava, metamorfoses forçadas pelas mãos da criança que grita, chora e vive!

Oh esse brinquedo que lhe transformava o coração, esse "brinquedo de corda", transfigurado em algo irreal. Sentia a cabeça a voar, os segundos a esvanecerem pelos dedos sujos da terra, o cheiro a terra molhadas, e o verde cintilante da relva acabada de plantar. Era o ciclo da vida, na sua potência máxima. E a criança brincava, feliz e descomprometida, naquele seu jeito tão próprio.

Com aquele brinquedo, apenas aquele, conseguia colocar o seu pensamento noutro local, um rodopio em catadupa frenética. Em torno dele podia partir e chegar àquela estação do sonho, onde se conheceram e despediram. Lembras-te? Oh o sonho cresce, enche o espírito de vontade. E não digas que é estupidez querer o imaginário.

Com o brinquedo viajava, sim, ia àquele sítio e voltava, gostava de fazer amigos. Eram momentos solitários, mas repletos de momentos intensos.

Aninhava-se baixinho, sorria intensamente, fechava os olhos vincadamente, apertava o brinquedo contra o peito e partia. Que ritual tão simples e singelo!

Aquele simples brinquedo era assim, consumia-lhe as forças, mas dava-lhe vida. Através dele conseguia personificar-se, através dele era feliz. E não é ridículo por ser utópico. Ridículo é não sonhar, ridículo é não viver.

Ai, o meu brinquedo!

quarta-feira, 19 de março de 2008

Brincos Pirosos

Simples e banais, uns simples brincos laranja, do mais piroso e usual que existe, reluziam naquela que seria por certo a mais delicada e singela orelha.
Simples combinação do acaso, ou um acesso de pirosada num ímpeto de revolta contra os estereótipos sociais?

A complementar, um cabelo com as famosas nuances, uma camisola decotada e uma banhinha bem jeitosa, que denuncia aquele bolo apetitoso que vinha a comer repetidamente durante os últimos dias.

Andava majestosamente, com uma segurança singular. Os risinhos e comentários passavam completamente ao lado daquela personagem ridícula e pouco original.

Mas que se passa? Será que os espelhos se apagaram para essa criatura? Será que tem uma deturpação visual, qual catarata, qual quê!

E ela só queria ser feliz, ao jeito peculiar dela, mas inteiramente lícito nessa ânsia apressado, nesse desejo insatisfeito, nessa catadupa de sentimentos!

Cátia Vanessa, para sempre nas nossas memórias ficará esse garbo que te tornou mulher, essa imagem que tornou uma Ana Malhoa sensual.

Vai querida, brilha e torna-te estrela.


Atenção: devaneio causado por um raio certeiro ao centro da retina. Sempre que sintomas semelhantes persistam, consultem o vosso veterinário ou farmacêutico.

terça-feira, 4 de março de 2008

Razão

Estava escuro, o frio trespassava a pele e, perfurando como um punhal aguçado, lembrou-lhe que algo iria mudar. Era talvez uma noite diferente, ou então mais uma, sozinha, morosa e inabalável. Talvez seria o delírio, ou então a mais pura realidade. Nada saberia em concreto, a não ser querer que o tempo passasse. Tudo se resumia àquele momento, àquele minuto. E, dando voltas às cabeça, num roda vida de emoções, cogitações e sensações nunca dantes pensadas. Pensadas sim, embora desejadas como sentidas e vividas. Racionalidade crua e dura, numa analogia ao puro sofismo categórico, que nos massacra e corrói. Rodopia vida, rodopia. Dá a volta, vira página! E o vento volta, depois de terminado minutos antes. O cabelo esvoaça, o casaco é fechado, as emoções mudam e a expressão neutraliza-se. A corrida torna-se eminente, os passos alargam-se e o destino aproxima-se. A meta está mais próxima. Mas qual será o prémio? O mundo gira nos seus olhos, é a ilusão. Apetece-lhe cair e dormir, não consegue. Está em êxtase! Quer saltar, pular, sentir o chão. E no balanço dos episódios, a encarar o vilão, eis que os olhos se fecham e se cala a razão! E só aí tudo se esvanece, afinal não estava escuro, afinal não era vento, tudo era mito e nada era real. É aí que um raio quente obriga uma das janelas da alma a abrir-se, mostrando que mais alto o sol brilha e a solidão se mantinha. A vida exânime estava lá e por mais forte, duro e independente que fosse, tudo que mais ambicionava era... ajuda!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Devaneio

Apenas imprecisas impressões de um tempo gasto pela usura.
Tivemos o mundo, fomos o mundo!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Sorriso

Estava sentada na praia, sentindo levemente o cheiro da maresia. Fechou os olhos, queria pensar numa vida pontuada com momentos marcantes e intensos. De repente, uma lágrima pesada e fugaz escorreu-lhe pela cara. Era a explosão daquelas infinitas que povoam todo o seu ser!
Paulatinamente, invadiram-lhe a mente os últimos dias. Os problemas com o marido, a discussão com a mãe, o despedimento, o acidente do filho... e que mais lhe restava naquele momento? A solidão, um refúgio sempre oportuno e fácil. Respira bem fundo, uma lufada violenta de ar preenche-lhe a alma. Sente-se cheia agora! Era como um carregar de bateria, gostava de se sentir pura, renovada com a Natureza envolvente. Despe-se! Primeiro com passos lentos e pesados, gradualmente céleres e graciosos, lança-se no mar. Passaram-lhe longos minutos e, por fim, regressa à areia quente por aquele sol outonal. As folhas, finalmente amarelas, esvoaçavam pelo ar, numa levitação mágica e quase irreal. O mundo é tão perfeito, cheio de pormenores interessantes. Era mote para ela recomeçar. Encontrar um sentido convincente e realmente preponderante. Volta as costas ao mar e parte, não sabia bem para onde, mas sabia que para um lugar melhor. Abana levemente a cabeça e sorri, era de facto uma dádiva viver!

domingo, 12 de agosto de 2007

II - Cogitações

Há tantos lugares que nunca conheci, tanto que imaginei estar e alcançar e nunca consegui concretizar tantos sonhos que guardo dentro de mim. Mas um dia sonho espero alcançá-los. Sempre tive tudo na vida, um emprego bastante razoável, um óptimo carro na garagem, uma casa no centro da cidade; contudo sempre me faltou o mais importante, a paz de espírito! Sinto que vivi uma verdadeira vida falhada, uma vida que não a minha. Talvez seja o resultado de trilhar caminhos sempre planeados e idealizados!

Havia uma telepatia no olhar, um contentamento disfarçado na expressão tranquila e sincera de um simples mortal à procura de respostas nunca vindouras. Era a força do segundo, sempre eterno e moroso, no entanto, desejado como perene e ligeiro. Por vezes, algo acontece de uma forma tão intensa, que nos perguntamos se alguma vez estivemos preparados para tal, talvez não, nunca se sabe até que ponto pode a força humana resistir, até quão longe pode ir a espectacular forma de sermos audazes, de desejar e arriscar. Eu sou mais um daqueles que tudo quer, mas que pouco faz para atingir os seus objectivos. Sempre me habituei a conseguir tudo com muito pouco esforço, quando algum obstáculo se interpunha no meu caminho, amaldiçoava sempre a minha sorte, julgando ser eu o mais injustiçado do mundo. É engraçado esse desejo de posse da infelicidade, todos querem ser os mais sofredores, os mártires do mundo. Todos querem a pena e a atenção do outro; todavia, sem serem julgados como coitados e miseráveis. Todos querem tudo, todos fazem nada. E eu sou igual, por que haveria de ser diferente? Não é isso que nos exigem diariamente? Um estereótipo de sociedade, sermos todos contemplados com valores iguais, que se forem quebrados terão como consequência um julgamento implacável perante aqueles que nem competência têm para reger as suas vidas medíocres?